Pensando minha relação com o cansaço
Quando eu finalmente dei o passo que faltava e saí de um trabalho que me exauria para me dedicar a mim mesmo, me deparei com um momento delicado. O alívio da rotina foi imediato, porém algo indefinido pairava no ar. Eu finalmente tinha tempo para mim mesmo, para descanso, projetos pessoais, casa, casamento, amigos etc. No entanto, a falta de uma rotina e de horas ocupadas, ou ao menos preenchidas na agenda, me causou uma angústia por dias. Eu me sentia culpado por não rodar no modo selva, trabalhando desde o despertar e tensionado com isso até o adormecer.
Me recordo de que, no primeiro mês, o sentimento era tão corrosivo que cheguei a acionar uma inteligência artificial e treinei um chatbot para atuar como uma assistente pessoal para gerenciar meus dias. Eu anotava todas as demandas que eu achava que deveria fazer; então, fazia um planejamento do que queria fazer ao longo da semana e em quais dias poderia distribuir as tarefas; por fim, enviava para o chatbot treinado, e ele organizava os dias e horários das coisas a fazer, incluindo os repousos.
Segui esse sistema por duas semanas até que ele finalmente parou de fazer sentido. Meus dias não eram mais corridos e não fazia sentido manter neles a lógica de exaustão que eu fiz questão de deixar para trás na tentativa de não sucumbir. Foi quando notei que era algo além de rotina e hábito. Nesse ponto, coube a mim admitir que meu problema era o vício em estar cansado. O cansaço era uma forma de me validar, de dar sentido à vida. Eu não admitia não trabalhar o suficiente, pois a romantização do cansaço estava tão internalizada que, sem me cansar e sem me esgotar, a coisa não fazia sentido.
Sim, um absurdo, reconheço.
Felizmente, o passar do tempo rompe expectativas e tensiona todo tipo de padrão ao qual nos agarramos para chamar de zona de conforto. Aquele modo de vida não cabia mais por uma razão simples. Era natural operar dessa forma quando minha vida estava submersa em ambientes e ciclos que funcionavam nessa lógica de exaustão. Não havia tempo nem ânimo para mais nada. O que restava? Manter o ciclo e se ocupar cada vez mais com exaustão para ignorar o vazio promovido nas demais áreas da vida. Com uma mudança estrutural tão profunda na rotina, pude me reconectar com camadas de mim que considerava perdidas no passado. Elas estavam de volta à posse de minhas mãos: interesses, desinteresses, simpatias e antipatias, assim como o descanso e os projetos pessoais.
O casamento, a família, os amigos, os estudos e os hobbies foram fundamentais para recolorir uma vida que antes se via acinzentada e dar movimento às minhas próprias narrativas. Meu brilho voltou.
Das coisas que eu jamais imaginei que faria, a chegada do tarô como hobby foi a que mais mexeu com meus sentimentos, justamente por parecer ser tão alheia a todas as outras esferas de minha vida e, paradoxalmente, se conectar profundamente com cada uma delas. A beleza das cartas e das jornadas entre arcanos maiores e menores são lembretes de que tanto o movimento quanto a pausa são necessários. E que andar por aí carregando pesos e propósitos alheios não faz bem para ninguém.
Além disso, meses depois desses movimentos iniciais, voltei a me dedicar à escrita. Estou publicando profissionalmente um livro que deixei guardado na geladeira por aguardar o momento certo. Esse “aguardar” se converteu em abandono. Abandono da obra e abandono de mim mesmo, por não dedicar um esforço sequer para realizar meus próprios sonhos. Quando o ânimo voltou, os sonhos também floresceram. A roda começou a girar. Meu livro Titanic: o amor não é para covardes deve chegar impresso em breve, me fazendo lembrar de que meus sonhos são possíveis quando dedico minha paixão, minha energia e meu tempo a eles.
A culpa de que falei acima ainda me persegue. Descansar ainda me inspira um tipo de desconfiança. Aquela sensação de cometer um crime. Outras vezes, me pego exagerando no volume de tarefas, nas horas dedicadas e no estresse envolvido. Há outras em que me torno o mais procrastinador dos procrastinadores: não realizo nada, mas tudo continua no meu radar, o que também pode ser bem cansativo.
A jornada não é linear — isso já está demonstrado em minha própria biografia —, mas é perceptível como desintoxicar-se do vício em trabalho e da romantização da exaustão devolve a vontade e o sentido de viver. Ter tempo para si é oferecer cura para a alma e preenchimento para a existência. Liberdade para ser. Se eu fosse panfletar alguma coisa por aí, com certeza seria algo como: “excesso de trabalho e cansaço são incapazes de preencher o vazio de sua alma”. Dito isso, aqui finalizo e repouso nesta nova e estranha fase.
Publiquei esse texto em uma versão em vídeo no Tiktok:
@caradoespelho escrevi esse texto em novembro: uma reflexão que virou crônica e não tem muita conexão com esse vídeo em que eu faço minhas coisinhas de escritor e pintor amador #escritor #textos #reflexão #cansaço ♬ som original - Diogo Souza | Escritor
