Oi, eu sou o Diogo Souza

Sou escritor e jornalista, autor dos livros Novo Rumo, Encontro com o Cara do Espelho, Sobrevivendo a um Relacionamento Abusivo e O Amor não é para Covardes (em reedição).

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(Cara do Espelho #6) Um Novo Rumo em Minha Vida: um Barquinho Velho, uma Criança Concentrada e a Aura me Cercando




O ano era 2022, e eu estava exausto. Minha rotina de trabalho era intensa, e não era raro para um assessor de comunicação encarar expedientes que começavam às 8h e terminavam às 22h. Três anos sem férias, noites de insônia, um pós-pandemia tão incerto quanto o “durante”. Quando meu esposo sugeriu Jauá — uma paisagem de sua infância na Bahia —, hesitei. Uma das minhas especialidades é arrumar empecilhos, e não brinquei em serviço: medo do mar, de altura, da estrada, da hospedagem, de tudo que aquela viagem significava. Mas acabei concordando, pois sentia que ou eu descansava, ou minha mente entraria em colapso.


Logo nas primeiras horas da manhã, chegamos a uma vila simples de Camaçari, onde tive um reencontro sorridente com o mar da Bahia, que me tocou em tons de azul-turquesa e verde-esmeralda. Entre as rochas do quebra-mar da Praia de Jauá, havia uma piscina natural de água morna, perfeita para quem teme ondas. Se aquilo fosse uma pintura, deveria se chamar Representação da Paz.


Nos primeiros dias, minha mente ainda zumbia com preocupações do trabalho e culpa pelo descanso. Porém, John insistia: “Vamos desconectar”. E foi aos poucos que o atrito suave da areia nos pés, o cheiro de moqueca nos quiosques, os ritmos baianos por toda parte e o balanço dos coqueiros me trouxeram de volta à vida. A vida real.


Apenas no terceiro dia reparei em um barco de pesca ancorado próximo à faixa de areia. Novo Rumo, dizia a placa desbotada, cercada de avisos: “Não suba”. As crianças do local ignoravam solenemente as placas, pulando no convés e depois saltando de volta para a água como se fosse um brinquedo temático. Eu, porém, via algo mais: aquela embarcação velha parecia carregar um segredo. Era esquisito. Sentávamos no bar pela manhã e pela tarde, e eu observava o barquinho por horas. Era como se estivesse hipnotizado pelo movimento de vai e vem das marés. Ali perto, um menino pescava despretensiosamente, com a concentração de um adulto.


Minha leitura da época era A Grande Magia, de Elizabeth Gilbert. Ela fala sobre ideias que vagam pelo mundo à procura de quem as acolha. Naquela semana, cercado pelo cheiro de maresia e pelo som de Xamã repetindo Malvadão nos quiosques, estabelecimentos e casas, senti que uma dessas ideias me rondava. Fotografei o barco, o menino pescador, as formações rochosas, as redes secando ao sol — mas nada se encaixava. Tudo era um caos sonoro no campo das ideias.


Este sou eu, orgulhoso, mostrando meu livro mais recente “Novo Rumo”



As férias terminaram com a típica vontade de largar tudo e morar naquele paraíso, ainda imaculado pelas pressões e rotinas de trabalho. Na volta para Aracaju, já na Linha Verde, cochilei no ônibus. Foi então que tudo explodiu como um clarão em minha mente: o barco, o menino, as placas, a música… Peguei o celular e despejei algumas páginas no Notion, como se alguém sussurrasse a história em meu ouvido. Quando chegamos a Sergipe, às duas da manhã, o esqueleto do livro estava pronto.


O Novo Rumo não era apenas um barco aparentemente abandonado. Ele havia se tornado uma metáfora da minha própria jornada naqueles dias: do cansaço à reinvenção, do medo à entrega. Os detalhes sutis daquela viagem — a criança impassível, as placas de aviso desrespeitadas, as ondas suaves da piscina natural, até o sabor amargo do café dos quiosques — tudo se transformou em ficção.


Hoje, agradeço a Elizabeth Gilbert por ter me alertado sobre as ideias que voam em busca de abrigo; a John, pela insistência em me levar à Bahia; àquele menino pescador, que nunca soube ter sido inspiração para um personagem de uma história escrita na areia daquela praia; e também ao barquinho, que, de formas tão sutis e delicadas, me aconselhou a recomeçar e mudar os rumos da minha vida.


Além do espelho:

Novo Rumo foi lançado em janeiro de 2024 em formato ebook e está disponível para compra na Amazon no link: novorumo.escritordiogosouza.in


A título de curiosidade: a viagem citada completa 3 anos nesta segunda, 03 de fevereiro. Escrevi sobre o barco neste post.


Dei uma entrevista sobre o lançamento do livro para o Jornal da Fan da Rádio Fan FM (quase morri de nervosismo, mas fluiu):






 


Falei sobre o livro A Grande Magia de Elizabeth Gilbert nesta nota:

Interessante retomar a leitura desse livro e me deparar com observações tão simples, mas que passam despercebidas. Enquanto narrava como um conto foi recusado e anos depois aceito pela mesma pessoa, Elizabeth se atentou ao fato de que as pessoas que estão de guardiãs nos portões que nos separam dos nosso sonhos são, na verdade, PESSOAS. Então, as razões para sermos recusados vão muito além de sermos bons ou ruins, pois depende do momento. Pessoas vivem momentos e esses momentos não definem uma vida inteira. Embora podemos ser julgados e condenados para sempre por um único momento de falha, de erro, de explosão. Aqui fica o lembrete de que: se alguém achou que produzi algum ruim, há inúmeras possibilidades de ambos lados que justifiquem ou não tal julgamento. Mas, o que realmente, importante é que isso não significa que eu seja ruim, ou ainda que a pessoa seja um algoz. Eu posso encontrar alguém que goste do que produzi, eu posso melhorar o que fiz e posso, quem sabe, até agradar aquela pela mesma pessoa em um outro momento. Desistir não me parece mais uma boa ideia. (Em 13 de maio de 2023, anotado em algum lugar no Notion)

- Diogo Souza

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